domingo, 11 de novembro de 2012

Em honra de S. Martinho



Um certo dia, em que bastante chovia, um soldado valoroso, apressado seguia, para chegar ao seu destino, à terra onde vivia. Atravessava a serrania a cantar, alegre, a chuva parecia não lhe pesar, só de pensar, nas coisas boas que iria desfrutar, depois de chegar a casa, ao aconchego do lar. Martinho, assim seu nome escrevia, numa curva do caminho, encontrou um homem, que pouca roupa vestia. Com vontade de ajudar, foi obrigado a constatar, ali, naquele lugar, não ter muito que ofertar. Assim pensava, mas, quando do cavalo se apeava, sentiu que no seu coração boa ideia se instalava. A sua capa, larga e quente iria cortar, oferecer metade ao pobre para o agasalhar.

 O sol que estava a descansar ficou contente com tudo o que se estava a passar. Às nuvens, que andavam a regar os campos, abastecer as fontes, pediu licença para se mostrar, com os seus raios luminosos tão nobre gesto queria saudar. Ao fim desse dia, quando do horizonte se estava aproximar, o sol, por mais algum tempo resolveu ficar, a Martinho um pequeno Verão queria ofertar. E, para que o ocorrido não fosse esquecido, para todos, velhos e novos, se poderem lembrar, viria, mais tarde, a decretar. No decorrer dos séculos, todos, se iriam juntar, com frutos da terra, castanhas e vinho, dia 11 de Novembro festejar. Assim, lá no alto, contente, poderia com mais intensidade brilhar e a todos alegrar.

 Os fornelenses, preservando a tradição, em dia de São Martinho, num aprazível domingo de sol, junto á Igreja e ao salão, no seu magusto, saborearam castanhas, beberam vinho novo da região, cantando e dançando ao som da concertina e acordeão.

Filomena Magalhães

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Horizonte de Liberdade


Numa tarde em que o sol teimava em não se mostrar, Monte Longo atravessou a cidade para visitar as mulheres que sonham em se libertar.
Encostadas à parede, que as estava a amparar, com sorrisos de luar, raios de luz no coração a brilhar, ou lágrimas de mar, lá estavam elas de olhos postos no céu a esperar.
As que na velhice vivem a sabedoria da idade, cheias de graciosidade mostravam em gestos de piedade o caminho, aquela que ainda na flor da idade, tudo quer viver e pouco sabe.
As de meia-idade, com alguma maturidade, por entre as brumas, vislumbravam da janela, junto ao umbral da porta da herdade, uma figura angelical e bela, onde vive a grande comunidade, que seguiu pelos caminhos que conduzem à liberdade.

Uma vez no quarteirão, Monte Longo resolveu nesse mesmo dia visitar o casarão, que viveu durante muito tempo na sua imaginação, onde também estava patente a exposição.

Já no primeiro andar, chegou-se à janela, estendeu o olhar para o sítio onde em tempos se costumava sentar, perto do pomar, que na primavera se enchia de margaridas por entre as ervas verdes a espreitar. Carregadas de flores, com os frutos nas entranhas a germinar, as árvores, estendiam os ramos para vespas, borboletas se poisar. De volta ao interior, influenciado pela beleza das obras de arte que se encontravam ao seu redor, em silêncio entoou, um pequeno hino de louvor. Deus do Universo, que criaste as flores do pomar, a chuva para as refrescar, o sol que as vem alimentar, sinto-me grato por tudo que me é dado presenciar, aqui, ou em qualquer outro lugar.

A rapariga que estava mais ao perto a observar, deixou cair uma lágrima pela tela a rolar. Logo transformada em leve brisa, a lágrima ao se evaporar, entrou pelas narinas, nos corações se foi instalar. Sensibilizadas, por essa onda amistosa que andava pelo ar, as figuras na parede a representar, foram ganhando vida, aos poucos, saíram do seu lugar, vieram-no abraçar.

 Quando a galeria estava a abandonar, Monte Longo lembrou-se de um certo dia em que andava a passear, ter subido as escadas para confirmar se as salas eram tão grandes como as costumava imaginar, antes do progresso chegar e o casarão um dos seus membros ter que retirar para os carros poderem circular. No cimo das escadas a contemplar a clarabóia que ainda se encontrava no mesmo lugar, por instantes, sentiu a escola regressar, no fundo da alma pareceu-lhe ouvir a voz da professora a ralhar. “Aí vêm as parvinhas, têm sempre que se atrasar”. Falava assim, para humilhar as raparigas que estavam a chegar todas encharcadas, já cansadas de caminhar. Secretos mistérios da pedagogia ainda tinham que aturar, depois de levar com a esgravanada e ver o guarda-chuva ir pelo ar. Depois de constatar que o tamanho das salas ficava aquém do que gostava de recordar, com um leve sorriso no olhar disse para os seus botões quando as escadas de granito estava atravessar: Ai a memoria dos sentidos, como nossos sonhos gosta de enganar!

 

domingo, 28 de outubro de 2012

Sons de Outono


 

“Sons de Outono” no Club Fafense
Todos sabemos que as escolas de música são uma mais-valia na vida das comunidades onde se inserem. Com o objectivo de promover a cultura transmitida através da arte dos sons e a sua divulgação para lá dos muros da escola, realizou-se o concerto "Sons de Outono" da classe de flauta transversal do professor João Ferreira, da ArtMusic— Berço da Cultura da Lixa, na sexta-feira dia 26 de Outubro, pelas 21.30, no Club Fafense. No concerto foi interpretado um conjunto de obras para quarteto de flautas, de vários períodos da história da música, algumas com o acompanhamento de duas guitarras.
A sala esteve cheia para acolher este concerto outonal, o que proporcionou contentamento à organização, salientando-se também que a população fafense começa a criar hábitos musicais muito saudáveis.





F M

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Gratidão


Depois do verão, colheram-se as uvas, o milho e o feijão, folhas em tons castanhos e amarelo cobrem o chão. As árvores de folha caduca até à primavera ficam a esperar, os ramos das outras, durante o inverno o frio e o vento terão que aguentar. No doce outono, crianças e adolescentes, depois de várias semanas a descansar, vão cheios de alegria, à livraria, comprar livros, cadernos e lápis para à escola regressar.

Foi num outono assim, com o céu nuns dias a sorrir, noutros a chover, que um governante sonhou com as gerações que não tiveram muito tempo para aprender. No sonho o governante sofria bastante, pois, queria ver o seu povo mais instruído e tolerante. Ao acordar, com os seus colaboradores, a ideia foi compartilhar, começou a trabalhar, para resolver de que forma o seu sonho iria realizar. Depois de tudo analisar, resolveu dar nova oportunidade aos que quisessem estudar. Libertar da escuridão, os que queriam e não puderam receber instrução, em tempos que já lá vão. Logo que o muro atravessou, o sonho não se dissipou, pelas ruas viajou, nas escolas e casas do seu povo entrou, outros sonhos provocou, nas cabeças como raio de luz poisou e muitos corações alegrou.
Monte Longo, ao verificar que o sonho do governante a vida da sua amiga veio alegrar, foi empurrado ao passado e deu consigo a pensar na menina que consigo andou a brincar, na encosta do monte, onde se ouviam as rolas a cantar e as rãs na fonte a berrar. Certo dia ao escurecer estavam os dois a conversar quando ela se lembrou de dizer que não lhe apetecia crescer, para não ter que ir para a tecelagem tecer. Nessa altura não soube o que lhe dizer, ficou só a ver, os seus olhos nos dela a entristecer,  sentindo o coração a doer, ele que gostava tanto dela e a viu crescer. Lembrava-se agora que para esquecer, os dois desciam a correr,  ouvindo atrás deles os degraus a ranger. Chegados à loja, parecia-lhes ver, na parede por entre as teias de aranha que não paravam de crescer, o caixão rodeado de velas a arder, do morto que no regresso da escola tinham ido ver. Iam ao pipo tirar água-pé, pegavam na lenha, para fazer o café,  sentindo o frio nas costas a arrepiar, subiam, deixando cair o alçapão com forte estrupidar. Depois do perigo passar, atiravam uma gargalhada pelo ar, correndo para cozinha, onde a mãe os estava a esperar. Monte Longo, de tanto que com ela andou a brincar, nos eidos, nos sobrados, nos limpadores e nos lagares, ou deitados no chão a cheirar o sabão no soalho acabado de esfregar, passou a conhecer-lhe o jeito e o andar. Agora, não tinha coragem de se aproximar, pensando nas dificuldades que ela teve que atravessar. Gostava de a imaginar, a tomar café,  fazendo de tudo para se apressar,   descendo as escadas a saltitar. Depois de tanta atribulação, Monte Longo chegou a uma conclusão, as lembranças da sua amiga e das casas por onde passaram,  ficarão para sempre no seu coração.
Filomena Magalhães

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Monte Longo VI


 Certo dia ao acordar Monte Longo gostou de ler o que se tinha escrito sobre a rapariga X e o rapaz Y do outro lado mar. O que entendeu, daquilo que leu, foi que o casal num dia igual a outro qualquer foi possuído por um súbito desejo de aventura, um constante bem-me-quer. Para o momento prolongar, resolveram voltar atrás no tempo, embarcar numa máquina que um velho sábio tinha acabado de inventar. Inspirados pelos romances antigos, escolheram como destino ideal a Idade Média, local que há muito desejavam visitar. A viagem já tinha partida com data marcada, teria início de madrugada, quando o relógio da torre da Igreja batesse as três baladas. Seria efectuada num curto espaço de tempo, mas tudo teria de ser maravilhoso e intenso. O rapaz para seu bem alegrar, pensava percorrer a praia, contratar alguns piratas que soubessem bem tocar, outros fariam parte do coro, mesmo a desafinar. No final do serão, ela com os olhos brilhantes de tanta emoção, antes de abrir a porta apareceria à janela a corresponder a toda a paixão. Os dois iriam percorrer trilhos fazer caminhadas, pelos campos verdejantes e colinas escarpadas Ao fim do dia, já cansados de andar, sentados debaixo dos carvalhos, no cimo da colina iriam descansar. No horizonte o sol a descer, a água do mar a brilhar, as gaivotas junto aos mastros a cantar, uma nuvem divina envolta em amor e paz ao longe estavam a avistar, tornando especial aquele lugar.
Pioneiro, um pouco imprudente, o rapaz apoiava as boas causas, era impulsivo mas valente. A rapariga era dúvida, ponderação, alguns pontos de interrogação, deslumbrava-se com o coro que ouvia dentro do coração. Durante o caminho, passou muito tempo a conversar com a alma do mundo, a ouvir o que tinha a lhe revelar. Quando chegou ao local indicado, o botão já tinha sido accionado, o moço já tinha embarcado. A rapariga ficou algum tempo a esperar, na esperança da máquina regressar.  Fruto da Criação, junto dos que lá estão, ficaram em comunhão, os pés, as mãos, os sentidos e a razão, bem junto ao coração.
F. M.

 

 

domingo, 16 de setembro de 2012

Monte Longo V

Monte Longo estava frente aos destroços cansado de tanto avaliar, lamentando os estragos que o furacão deixara ao passar.
Por outro lado, talvez não, muita coisa não funcionava, estava a precisar de manutenção. Abriu a torneira, lavou as mãos, o rosto no espelho olhou com emoção. Sentindo o precioso líquido a escorregar, sentiu gratidão por bem tão precioso poder desfrutar.
Tinha conhecido o povo beduíno de raspão. Um ancião lhe contou da sua disposição de não querer nada de nada, viviam da pastorícia e moviam-se à procura de água, sua grande consolação. Depois de se mirar, saiu porta fora para apanhar ar, levantou os olhos ficou a olhar, o carreirão de estrelas que lhe fez lembrar o que a avó dizia nas noites de luar. Com o dedo indicador, ela apontava no céu um carreirão de estrelas de grande esplendor. “ Ali está o caminho de Santiago que leva a nosso Senhor, quem não o percorrer em vida terá de segui-lo na morte mas depois vai ter mais dor”. 
Depois de ter olhado as estrelas saiu dali ensonado com os olhos cansados e já bastante pesados.

Ao outro dia, ao acordar, lembrou-se de ter sonhado com anjos no céu na estrada de Santiago a passear. Alguns sentados nas bermas estavam a descansar. Mais à frente, um anjo viajante com olhar sereno prendeu-lhe o olhar, disse-lhe que tinha algo a lhe revelar. Queria falar sobre a viajem algures pendurada no tempo que lhe estava a preparar. A voz amena o olhar primaveril falou-lhe da terra onde deviam ir. Lá, as sardinheiras, as rosas nas janelas, à porta das casas, de vermelho forte, são muito vistosas. Os anciãos por traz das vidraças sorriem, acenam aos transeuntes que sozinhos ou em grupos, alegres percorrem as ruas e praças. Monte Longo, ainda a sonhar, por cima duma nuvem estava à janela a observar um anjo de grande beleza que vinha ao longe a apregoar. “Desviem-se das flechas que podem envenenar!” Para melhor escutar, debruçou-se na janela fez-lhe sinal com o braço para se aproximar. Tinha que pedir conselho, queria-lhe perguntar de onde vinham as flechas, queria se desviar. O anjo se abeirou, sua forma lhe mostrou. Trazia no semblante uma mensagem brilhante. Na mão trazia um rolo de letras resplandecentes desenhadas com fulgor, fruto de punho divino, uma mensagem de amor. Olhou devagar as letras, uma a uma as decifrou, sua vida, não dependia disso, o coração sossegou. O anjo não se demorou, guardou na sacola a folha, tinha muito que fazer, mostrar ao povo terreno a estrada que conduz ao fogo divino que a todos seduz. Depois de acordar Monte Longo sentou-se junto da cama a pensar, queria muito entender o que o anjo na saudação final lhe queria revelar. Tinha certeza, o gesto fora de aviso para se precaver. A flecha azul, que cruzou o ar ao anoitecer quem a poderia mandar só para sobreviver? Talvez a cobra verde água, que ferra qualquer calcanhar só para poder vencer. Não foram precisos muitos dias, a profecia divina se viria a confirmar. A maldade humana que tudo profana, gosta de atrapalhar, não olha a meios para seus intentos alcançar. Monte Longo, aborrecido com a comunidade que gosta de bisbilhotar, parou, olhou, escutou o pequeno órgão que foi criado para amar, apesar de ferido ainda se encontrava a trabalhar. Não podia deixá-lo sozinho, com todas as suas forças teria que o ajudar. Vida protegida com Luz e Paz tentar conquistar.  Abrir as portas do Céu, para assim o Criador a quem tanto amam, muitas bênçãos lhes poder enviar. Ámen

Filomena Magalhães
 

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Monte Longo IV

Dias depois de levar o abanão questionou o seu coração. Como foi possível ter permitido aquela invasão!? Monte Longo deu largas à frustração, gotas de dor deixavam transparecer a grande desilusão.
Assim falava mas não se desesperava, sentia que os braços enormes do divino na alegria ou na tristeza o amparavam. A música, as flores, as silvas, as amoras, até mesmo as pessoas por detrás das máscaras eram para ele encantadoras. Que mais havia de querer? Cada um era o que é! Ponto final. Nada podia fazer. Assim decorriam os dias, sem grandes melhorias. Uns falavam, outros ouviam. Era assim que se entendiam. Detestava quando lhe invadiam a privacidade em nome dessa estúpida vaidade. Desde que Golias, o barão, insistiu em comandar o pelotão, tudo se havia transformado num enorme turbilhão. Ainda assim, no meio de tanta insanidade insistia no defeito de querer que as conversas fossem minimamente inteligentes, tivessem algum fundo de verdade.
O filho do capataz, que conheceu tempos atrás, era bom rapaz, gentil, educado, tinha um bom coração, mas havia caído sobre ele não sabia bem porquê uma grande aflição. A qualquer hora, em qualquer lugar, em qualquer dia por onde se movia um grupo de crianças malfeitoras o agredia. Certo dia, já cansado de os aturar, rogou ao Senhor se o podia livrar, afastar os agressores, para poder sossegar. Quem semeia ventos colhe tempestades, gritou do alto do céu sua majestade. Tens o sol, as estrelas, os rios, as plantas, o mar, sete dias na semana para comer, trabalhar, orar ou amar. Desanimado, o rapaz encurvado ficou lá um bom bocado. Ao fundo da alameda, já seu caminho seguia, levando na sacola as pedras com que se defendia, sentiu bem dentro do peito a luz divina o protegia.
Também ele, Monte Longo, apesar de ser durão agora mais do que nunca precisava de protecção. Desde que Golias chegou que muita coisa mudou. A esperança que tudo alcança se extraviou.
Primeiro foi o raio que caiu na central de alta tensão cortando a luz à povoação. Depois veio a seca que assolou toda região tirando ao mais venturoso a disposição. O calor excessivo nem sequer deixava pensar, a água na fonte já estava a escassear. O único barco, encalhado junto à margem, não podia navegar. Teria que esperar pelas chuvas para poder embarcar. Já não sabia o que fazer, talvez fosse boa ideia fazer o percurso a pé, partir ao anoitecer. Enquanto as feras dormiam, guiado pelas estrelas, descer os altos penhascos, antes de adoecer. Ao chegar perto do lago, apanhar o autocarro que percorre os verdes prados junto ao rio refrescante, saciar a sua sede na fonte de água viva que fica mais adiante.

Filomena Magalhães